Tem um tempo que eu venho querendo escrever este texto sobre a exaustão materna crônica, especialmente depois de ouvir, repetidas vezes no silêncio do meu consultório, o mesmo desabafo exausto e entrecortado por lágrimas contidas. Sabe quando você liga o chuveiro, deixa a água quente escorrer pelas costas e, finalmente, se permite chorar baixinho para que ninguém na casa escute? Sinceramente, a culpa de não dar conta de tudo está te consumindo de uma forma que você mal consegue explicar para si mesma. Você tenta ser a mãe perfeita, a profissional impecável que responde aos e-mails de madrugada, a esposa compreensiva, mas, no fundo, a sensação que impera é a de que você está falhando miseravelmente em todas as frentes, engolindo o choro a seco para não desmoronar na frente dos seus filhos.
Nós percebemos que, hoje, a sociedade cobra uma fatura altíssima da mulher contemporânea. É perfeitamente normal que você se sinta assim, porque, desde muito cedo, ensinaram a você que o amor de mãe é sinônimo de sacrifício absoluto. E então, você passa a pensar de forma punitiva, achando que se você dormir uma hora a mais, ou se disser “não” para uma demanda do escritório, o seu mundo vai ruir e você será julgada como incompetente ou egoísta. Mas você já parou para pensar nisso? Já parou para se perguntar de onde vem essa voz perversa que te acorda no meio da noite com o peito apertado, cobrando uma perfeição que simplesmente não existe? A exaustão materna crônica não é apenas um cansaço físico; é uma falência da alma, um esvaziamento silencioso de quem você era antes de ter que carregar o mundo inteiro nas costas.
Por que a exaustão materna crônica se disfarça de amor?
Eu ouço muito isso das minhas pacientes: “Rafael, eu faço de tudo por eles, mas parece que nunca é o bastante“. E é aqui que a psicanálise nos dá um soco no estômago, porém um soco necessário para que possamos voltar a respirar. Donald Winnicott, um brilhante pediatra e psicanalista inglês, cunhou um conceito libertador chamado “a mãe suficientemente boa“. Ele nos ensina que a mãe perfeita não apenas é uma ilusão cruel, como também é adoecedora para a criança. A falha materna, o limite, a sua humanidade exausta, tudo isso é fundamental para que o seu filho entenda que o mundo real tem frustrações. Quando você tenta ser onipotente, anulando os seus próprios desejos e varrendo a sua privação de sono para debaixo do tapete, você não está apenas se destruindo; você está ensinando aos seus filhos que o amor exige a anulação de si mesmo. Ledo engano, pura armadilha de quem tem medo de se assumir vulnerável.
Olha, eu sei que abrir mão do controle assusta. Quando passamos a repetir para nós mesmos que precisamos dar conta de tudo, mantemos uma armadura pesada que nos afasta de quem realmente somos. A privação de sono e a irritabilidade constante que você vem sentindo não são sinais de que você é fraca, mas sim de que você foi forte por tempo demais sem pedir ajuda. A exaustão materna crônica é o seu corpo gritando aquilo que a sua boca, por conveniência ou por culpa, insiste em calar.
Bom, o que eu quero te dizer hoje, como alguém que senta na poltrona e escuta as dores mais inconfessáveis, é que você tem o direito de falhar. Você tem o direito de estar cansada, de não querer brincar em um domingo à tarde, de pedir para sair de cena e simplesmente existir sem que ninguém te demande nada. O amor verdadeiro suporta a sua imperfeição. Não deixe que o medo de não ser o suficiente te impeça de viver a sua própria vida com leveza. Afinal, para cuidar do outro com integridade, você precisa, antes de tudo, parar de abandonar a si mesma naquele choro escondido no banho.
Rafael Botelho | Psicanalista
