São duas da manhã de uma terça-feira qualquer. O celular acende na mesa de cabeceira com uma mensagem de crise de um familiar, ou talvez um problema urgente que seu parceiro deixou para trás antes de adormecer tranquilamente ao seu lado. Você respira fundo, levanta-se no escuro para não acordar ninguém e resolve. Mais uma vez. Você sempre resolve. É neste silêncio noturno, enquanto todos dormem sob a redoma de segurança que você construiu, que a exaustão de ser o adulto da relação se revela não como um cansaço físico, mas como uma desolação psíquica absoluta.
O senso comum chamaria você de uma pessoa forte. A literatura de negócios aplaudiria sua “resiliência” e sua “capacidade de gestão de crises“. A psicanálise, no entanto, não está aqui para aplaudir defesas que matam o sujeito por dentro. Nós escutamos o sintoma. E o que grita por trás dessa armadura de infalibilidade é um desamparo insuportável.
O psicanalista Sándor Ferenczi, em suas formulações clínicas mais geniais, cunhou o termo “a criança sábia” (terrifiant). Trata-se daquela criança que, diante da fragilidade, negligência ou imaturidade emocional dos pais, precisou envelhecer de uma hora para outra. Ela percebe que, se não cuidar de quem deveria cuidar dela, o mundo desaba. A criança sábia não tem o direito à loucura infantil, ao colo, à irresponsabilidade. Ela se torna o psiquiatra dos próprios pais. O problema é que essa criança cresce, acumula patrimônio, assina contratos complexos, mas continua operando sob a mesma dinâmica traumática: ela compra o seu lugar no mundo através da utilidade.
O preço invisível e a exaustão de ser o adulto da relação
Quando você se torna o provedor inabalável, seja na conta bancária ou na estabilidade emocional de um casamento, ocorre o que John Bowlby diagnosticaria como a inversão da base segura. Nos vínculos íntimos, espera-se uma alternância: horas você é o porto, horas você é o barco que precisa atracar. Mas, na sua vida, o tráfego é de mão única.
Seu cônjuge, seus amigos e sua família o tratam como uma fundação de concreto armado. Eles ancoram seus navios em você e descansam. Mas onde a fundação descansa? Em lugar nenhum. A exaustão de ser o adulto da relação nasce da percepção aterrorizante de que o afeto que você recebe está visceralmente condicionado àquilo que você suporta. Há um pavor mudo de que, se um dia você disser “eu não dou conta” ou “eu estou com medo”, o amor do outro se dissolverá, revelando-se apenas como parasitismo polido.
Existe uma profunda confusão de línguas, para usarmos outro conceito ferencziano, na sua intimidade. Você pede amor, e o outro entende que você está pedindo mais demandas para gerenciar. Você tenta estabelecer intimidade, e o outro devolve infantilidade, colocando-o no lugar parental.
O luto de não ter quem segure a corda
Ser a âncora de todos não é um privilégio; é um exílio. Você se senta em jantares caros, bebe vinhos de safras raras, mas carrega a sensação indigesta de ser um estrangeiro na própria vida. Porque, no fim das contas, quem não tem permissão para desmoronar também não tem permissão para existir por inteiro.
A dor que te consome não é o excesso de tarefas. É o luto de uma fantasia que precisou morrer: a fantasia de que, em algum momento, alguém olharia para você e diria “sente-se, deixe que eu resolvo isso para você”. O luto de perceber que a sua vulnerabilidade não tem espaço no teatro das suas relações.
O trabalho de uma análise não é oferecer tapinhas nas costas ou estratégias de “gestão de tempo” para que você suporte mais peso. O setting analítico é, talvez, o único espaço no seu mundo onde você não precisa ser útil. É o lugar onde a sua falha, a sua angústia e a sua recusa em “dar conta” são recebidas sem cobranças. Onde a criança sábia pode, finalmente, depor as armas e chorar a infância que não teve, para que o adulto possa amar sem precisar ser um refém da própria força.
Rafael Botelho | Psicanalista
Atendimentos online para brasileiros no Brasil e Exterior.
(Para aprofundar sua leitura sobre as dinâmicas inconscientes que regem nossos laços familiares, recomendo a leitura do texto original de Ferenczi sobre a confusão de línguas)
