O frasco de antiácido na mesa de cabeceira virou um velho conhecido para a gastrite nervosa por não conseguir dizer não. A cartela de protetor gástrico estrategicamente guardada na gaveta do escritório já faz parte do seu “kit de sobrevivência”. Você já nem lembra mais quando foi a última vez que tomou um café puro, sentou para um almoço com calma ou desfrutou de uma refeição sem sentir aquela queimação familiar, silenciosa e cortante, subindo pela garganta. O diagnóstico médico você já tem na ponta da língua, mas eu te convido a olhar para essa dor por uma outra lente. Eu vejo no consultório, quase todos os dias, pessoas incrivelmente boas, polidas e solícitas, que carregam um estômago em chamas.
Você já parou para pensar que o seu corpo está, há anos, tentando digerir aquilo que a sua boca não teve a coragem de cuspir fora?
Existe uma conta que chega para quem vive de tentar agradar a todos, e essa conta costuma ser cobrada no corpo. É a gastrite nervosa por não conseguir dizer não. Quando Freud, no alvorecer da psicanálise, começou a escutar suas pacientes, ele percebeu algo revolucionário: aquilo que reprimimos, aquilo que não encontra uma via de escoamento pela palavra, inevitavelmente encontra uma rota de fuga pelo corpo. O nosso corpo físico não é apenas um amontoado de órgãos; ele é um teatro onde as nossas angústias mais inconfessáveis encenam suas peças. E quando a angústia é silenciada na garganta, ela desce como ácido para o estômago.
Vamos olhar para a sua realidade, nua e crua. Pense naquela sexta-feira, final do expediente, quando o seu chefe coloca mais uma demanda irreal na sua mesa. O seu estômago contrai imediatamente, o seu peito aperta, a sua vontade é de gritar que você também tem uma vida, que você está no seu limite, que você precisa ir para casa descansar. Mas o que você faz? Você força um sorriso amarelo, acena com a cabeça e diz: “Claro, eu resolvo”.
Ou pense no seu casamento, ou nas relações familiares, onde a carga mental cai inteira sobre os seus ombros. Aquele almoço de domingo onde você engole comentários passivo-agressivos para “não estragar o clima da família”. Você concorda com o que não quer, vai a lugares que odeia, assume responsabilidades que não são suas. Você é a filha perfeita, a esposa compreensiva, o funcionário exemplar. Mas a que custo?
Nós temos um pavor paralisante de desagradar. Desde muito cedo, aprendemos que o amor está condicionado à nossa utilidade e à nossa obediência. Fomos ensinados que dizer “não” é um ato de egoísmo, de grosseria. Então, para manter o amor do outro, para não causar conflito, para sermos aceitos na tribo, nós traímos a nós mesmos. E é justamente aí que mora o soco no estômago (literalmente).
A gastrite nervosa por não conseguir dizer não: a dor de engolir a si mesmo
A psicanálise nos ensina, desde as teorias de Melanie Klein sobre a introjeção de objetos bons e maus, até a leitura de Jacques Lacan sobre o sintoma, que engolir a demanda do Outro sem mastigar gera uma indigestão profunda na nossa subjetividade. Toda vez que você diz “sim” querendo dizer “não”, uma pequena parte de você é anulada. Essa agressividade que deveria ser direcionada ao mundo para estabelecer os seus limites, para proteger a sua cerca, o seu espaço vital, acaba sendo redirecionada contra você mesmo.
A sua azia não é apenas sobre o café ou sobre a comida temperada. A sua azia é a raiva represada. É a frustração de não ser visto nas suas necessidades. É a exaustão de carregar o mundo nas costas e não ter um único lugar seguro onde você possa desabar e simplesmente dizer: “Eu não dou conta. Eu não quero”. O seu estômago sabe de tudo isso. Ele queima porque está tentando destruir, com ácido, a indignidade das situações que você se obriga a engolir todos os dias.
Nós precisamos falar sobre como essa hiper-adaptação nos adoece. A medicalização excessiva do nosso cotidiano, um tema tão bem trabalhado por Christian Dunker (que, aliás, recomendo profundamente a leitura do seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma, disponível aqui na Amazon), muitas vezes serve apenas para silenciar o alarme de incêndio enquanto a casa continua pegando fogo. O omeprazol apaga o fogo provisório, mas não resolve o fato de que você continua abrindo as portas da sua vida para que passem por cima dos seus limites. (Para entender um pouco mais sobre esse ciclo de exaustão constante e como ele afeta nossas relações mais íntimas, você pode ler nosso ensaio anterior sobre o peso do cotidiano aqui).
O alívio verdadeiro não vai chegar no fundo de um copo de leite gelado ou na próxima ida à farmácia. A cura começa no momento em que você se autoriza a existir, a frustrar as expectativas alheias, a decepcionar um pouco as pessoas ao seu redor para parar de decepcionar a si mesmo.
Dizer “não” é, antes de tudo, um ato de contorno. É dizer: daqui para cá sou eu, daqui para lá é você. E não há nada mais terapêutico, nada que acalme mais um corpo em estado de alerta, do que uma boca que finalmente aprende a se defender. Da próxima vez que o estômago queimar, escute-o. Ele está te pedindo coragem.
Rafael Botelho | Psicanalista
