Você já sentiu isso. Aquela sensação física, pesada, de que o domingo à noite não é um momento de descanso, mas uma contagem regressiva. Você acabou de voltar de uma viagem impecável. O hotel era cinco estrelas, a vista era de cartão postal, e o vinho custava mais do que a maioria das pessoas ganha em um mês.
Mas, ao colocar a chave na porta de casa, o peso da exaustão da alta performance voltou. Não é o peso das malas. É o peso de uma armadura que você esqueceu como tirar.
Muitos chegam ao meu consultório dizendo que precisam “gerenciar melhor o tempo” ou “aprender a desligar“. Eles acreditam que o problema é logístico. Que se organizarem a agenda, a paz virá. Mas a verdade, aquela que o seu corpo já sabe, mas sua mente recusa aceitar; é que o seu cansaço não é falta de sono.
É falta de silêncio interno.
Na psicanálise, entendemos que pessoas de alta performance muitas vezes são reféns de um tirano invisível. Freud chamou isso de Superego. Para você, ele soa como aquela voz que diz: “Você poderia ter feito mais!“, “Se você parar, tudo vai desmoronar.“, “Descansar é para os fracos.“.
Você construiu uma vida baseada na infalibilidade. Você é o pilar da sua empresa, o porto seguro da sua família, o amigo que resolve tudo. E há um prazer secreto nisso, não há? O prazer de ser necessário.
Mas o custo desse prazer é a solidão. Quem cuida de quem cuida de todo mundo?
O burnout, nesse cenário, não é uma falha do sistema. É um grito de socorro da sua psique. É a única forma que o seu inconsciente encontrou de dizer “pare“, já que você não se autoriza a dizer essa palavra conscientemente.
Imagine, por um instante, como seria viver sem essa vigilância constante. Não estou falando de abandonar suas conquistas, mas de habitar o seu sucesso sem ser esmagado por ele.
Existe um caminho para renegociar esse contrato com a sua própria exigência. Para transformar essa culpa em potência real, e não em peso morto.
Esse caminho não se faz com dicas rápidas. Se faz com escuta.
A pergunta que deixo para você hoje não é “o que você precisa fazer amanhã”, mas sim: o que você está tentando calar com tanto barulho produtivo?
Rafael Botelho | Psicanalista
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