Sentado aqui na minha cadeira, no silêncio acolhedor do meu consultório, eu observo o desabar silencioso de dezenas de pessoas todas as semanas. Não são pessoas fracassadas, não são pessoas que desistiram da vida. Muito pelo contrário! São, quase sempre, aquelas que sustentam a família, que resolvem os problemas de todo mundo, que engolem o choro para não preocupar os outros.

E no meio de uma narrativa sobre exaustão, insônia ou ataques de pânico, surge sempre a mesma frase, dita com uma mistura de orgulho ferido e desespero: “Mas todo mundo sempre me disse que eu tenho que ser forte! Todos acham que eu sou a fortaleza da casa!”.

É um soco no estômago perceber o quanto essa palavra (“forte”) foi pervertida. Transformaram a força em um mandato de silenciamento.

O fardo de ser forte não nasce do nada.

Ele é, na maioria das vezes, uma herança cruel. Talvez, lá atrás, diante de um ambiente que estigmatizava a fragilidade, você tenha tido que expropriar a sua própria vulnerabilidade para sobreviver. Para não se sentir um estorvo, ou para não correr o risco de ser rejeitado, você inverteu a ordem natural das coisas: ao invés de receber colo, você virou o colo. Você assumiu o papel vitalício de receptáculo das angústias alheias. Sabe o que acontece quando a gente internaliza essa obrigação de não falhar nunca? A nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quando você veste essa armadura, você cria uma unilateralidade extrema. A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade.

Você construiu um Falso Self cuidador que funciona muito bem para a sociedade, mas a psique cobra a conta dessa rigidez. Se a tensão dos opostos aumenta, em conseqüência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência. Você acha que é a fortaleza, mas, na verdade, você foi possuído por ela. O resultado? A mente adoece e o corpo grita. A ansiedade generalizada e a exaustão não são sinais de que você é fraco; são a “tendência oposta” irrompendo para compensar o peso insustentável de ter carregado um mundo que não era seu por tempo demais.

Você já parou para pensar no terror que você tem de desagradar as pessoas se disser um simples “não”? O pânico de desabar e ouvir que você se tornou inútil?

Eu sei o quanto isso dói e conheço a solidão de se sentir invisível na própria dor. Mas entenda uma coisa: a psicanálise não está aqui para colocar mais um tijolo nessa sua parede defensiva. Nós não estamos aqui para te fazer “render mais” ou ser “ainda mais forte”. O meu trabalho, no abrigo da nossa escuta, é ajudar você a desmontar essa armadura sacrificial, peça por peça, para que você olhe para o seu limite humano e diga: “Eu não aguento mais. E tudo bem”.

Existe uma força imensa em reconhecer a própria fragilidade. É ali, onde a armadura racha e a luz entra, que a sua verdadeira vida pode, finalmente, começar. Para aprofundar a compreensão sobre como a unilateralidade da consciência e o distanciamento do nosso mundo interior geram o colapso, recomendo fortemente a leitura de A Natureza da Psique de Jung.

Rafael Botelho | Psicanalista