Você acorda na segunda-feira de manhã, coloca o pé no chão frio da casa e, antes mesmo da primeira xícara de café, sente aquele aperto familiar no peito. Não é enfarte, não é pressa; é a pura e densa angústia do cotidiano. A fatura do cartão que não fecha, o silêncio pesado dividindo a mesma cama de casal, a cobrança do chefe que nunca reconhece seu esforço e a exaustão crônica da mãe que limpa a casa, cuida dos filhos e se sente invisível para o mundo. É nesse exato momento de cansaço que a mente dispara a pergunta que todo ser humano faz quando o fardo pesa: “Por que isso tinha que acontecer logo comigo?”.

É uma pergunta compreensível, quase instintiva. Quando a dor nos aperta, a primeira saída do ego é correr para a posição de vítima. Afinal, lamentar-se dá uma sensação passageira de alívio: se o mundo é o culpado, se o casamento fracassou por incompetência do outro ou se a rotina engoliu nossos sonhos por pura fatalidade, então nada tínhamos a fazer. Mas preste muita atenção nisso que vou lhe dizer: enquanto você continuar procurando um culpado externo para justificar a sua dor, continuará sendo refém absoluto dela.

Na clínica analítica, o sofrimento nunca é tratado como um destino imposto pelos céus. Jacques Lacan nos lembrava que a verdadeira questão ética do sujeito é encarar a sua própria responsabilidade perante o caos do qual se queixa. O que nós fazemos no consultório não é passar a mão na cabeça do paciente para embalar suas mágoas infantis. O trabalho do analista é puxar o leme e colocar nas suas mãos a pergunta que verdadeiramente liberta: “O que você faz com isso que fizeram de você?”.

O cansaço da rotina, a sensação de carregar a família nas costas sem ter onde deitar a cabeça para chorar e o medo constante do fracasso não vão desaparecer por milagre. A vida adulta é exigente, árdua e, muitas vezes, solitária. Mas quando trocamos a pergunta da queixa passiva (“Por que eu?”) pela pergunta da ação subjetiva (“O que eu faço com essa realidade hoje?”), alguma coisa no nosso interior muda de lugar. A angústia deixa de ser um buraco sem fundo e passa a ser uma bússola.

O sintoma que você carrega (a insônia nas madrugadas, a gastrite nervosa no meio do expediente, a trava no peito) nada mais é do que o seu inconsciente gritando que a vida não pode continuar sendo vivida dessa maneira frouxa e resignada. Sándor Ferenczi já nos ensinava que a dor da alma busca canais no corpo quando nos recusamos a assumir a verdade daquilo que sentimos. O sofrimento só nos devora quando nos recusamos a encará-lo de frente.

Pare de esperar que o seu cônjuge mude de repente, que o seu trabalho se torne mágico ou que os seus pais finalmente lhe dêem a aprovação que você mendigou a vida inteira. Assuma o peso da sua história. Abrace a dor legítima das suas escolhas passadas, mas recuse-se a permanecer no chão alimentando lamentações que não movem uma palha.

A clínica psicanalítica não é um refúgio para justificar fraquezas; é um espaço para acordar a sua soberania e fazer de você o autor lúcido dos seus próximos passos.

Para compreender como a nossa mente constrói essas defesas contra a dor e como você pode reencontrar sua segurança interior, recomendo a leitura da obra clássica Uma Base Segura, de John Bowlby (disponível na Amazon). E, caso sinta que a sua caminhada diária precisa de um espaço seguro de escuta para transformar essa angústia em lucidez, conheça os artigos sobre as armadilhas emocionais em meu site e marque o início do seu processo.

Rafael Botelho | Psicanalista