A casa finalmente silencia. A louça está lavada, as crianças (ou as preocupações do dia) finalmente adormeceram, e você se deixa cair no sofá. O cansaço é tanto que os ossos parecem pesar o dobro. É quando o celular acende que a sensação de estar atrasado na vida começa a se instalar.
Você abre o Instagram e rola o feed. Lá está o seu antigo colega de turma comprando um apartamento com varanda gourmet. Lá está aquela conhecida anunciando uma viagem pela Europa ou uma promoção no emprego que você sempre quis. E então, sem pedir licença, aquele soco frio atinge a boca do seu estômago: a insuportável sensação de estar atrasado na vida.
Eu escuto isso no divã quase todos os dias. Homens e mulheres, exaustos, trabalhando em empregos que sugam suas almas para pagar boletos que nunca param de chegar, sentando na minha frente e confessando, com os olhos marejados: “Rafael, eu acho que eu perdi o bonde. Eu fiquei para trás. Tenho a sensação de estar atrasado na vida”.
Você olha para a sua conta bancária que mal respira até o dia 5, para os seus sonhos engavetados, para o casamento que muitas vezes se sustenta mais na rotina do que no desejo, e sente que falhou. Você sente que o mundo inteiro recebeu um manual de instruções glorioso, e você, por algum defeito de fábrica, ficou de fora.
Mas eu quero que você pare agora. Solte o celular mentalmente e me escute com a mais profunda atenção. A psicanálise tem um veredito implacável e profundamente libertador sobre essa dor que esmaga o seu peito. A sua vida não está atrasada. O que está atrasado, na verdade, é o seu luto por uma ilusão que implantaram na sua cabeça.
A sensação de estar atrasado na vida e o cronograma fantasma
Carl Jung, em sua imensa sabedoria clínica, dedicou sua obra a entender o que ele chamava de processo de individuação, o duro e belo caminho para nos tornarmos quem realmente somos, e não aquilo que esperam de nós. Jung percebeu que passamos a primeira metade da nossa vida construindo uma Persona, uma máscara social de adaptação.
Deram a você um roteiro muito claro e tirânico: estude, arrume um emprego “seguro” aos vinte, case-se aos trinta, tenha filhos, financie um carro, compre uma casa, seja hiperprodutivo, faça terapia holística às 6 da manhã, e nunca, sob hipótese alguma, fraqueje.
Esse é o cronograma fantasma. É o relógio invisível que dita o compasso da sua ansiedade. Quando você não cumpre os prazos desse contrato (um contrato que você nunca assinou, diga-se de passagem), a sua mente te pune com o sentimento de fracasso absoluto e a sensação de estar atrasado na vida.
Mas sabe o que Jung diria sobre essa sua angústia no ônibus voltando para casa? Ele diria que o que você chama de “atraso” é apenas o seu inconsciente se recusando a continuar vivendo uma mentira. Você está tentando espremer a complexidade brutal da sua história de vida dentro de uma planilha de Excel criada por pessoas que não conhecem os seus traumas, as suas feridas de infância e as pedras invisíveis que você carrega na mochila.
O luto pelo “Eu Ideal” e a coragem de ser real
Nós vivemos na ditadura da linha de chegada. Como pontua o psicanalista Christian Dunker em seu brilhante livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma (uma leitura que sempre recomendo), nós transformamos nossa dor em uma falha de gestão. Mas como cobrar que você esteja no “auge financeiro” aos 35 anos, quando você passou a última década apenas tentando curar as feridas emocionais de uma família desestruturada? Como exigir que você seja a mãe de família perfeita e sorridente, quando você sacrificou a sua juventude para não deixar faltar comida na mesa, ou para tentar ser perfeita?
O psicanalista francês Jacques Lacan falava muito sobre a formação de uma imagem ideal de nós mesmos. O grande drama da vida adulta é que carregamos esse “Eu Ideal” como um carrasco. Você carrega o fantasma do “Você” que deveria ter dado certo. O “Você” que não teria errado de profissão. O “Você” que estaria magro, rico e bem-casado.
Enquanto você não enterrar esse fantasma, você nunca vai habitar o seu corpo real. Você vai passar os dias odiando a vida que tem, porque ela não se parece com a vitrine editada dos outros. A comparação, meu caro leitor, é o ácido que corrói a sua alma. Quando você compara a sua vida com a dos outros, você está medindo os bastidores sangrentos da sua existência com o palco iluminado e com roteiro ensaiado de quem está ali apenas para performar.
O adulto trabalhador comum é um sobrevivente. E não há atraso nenhum em tentar sobreviver. Não há fracasso em perceber, aos 40 ou 50 anos, que você não faz ideia do que está fazendo. A verdade crua, que ninguém posta no instagram, é que ninguém sabe o que está fazendo. Estamos todos tateando no escuro.
A vida não é uma linha reta ascendente. Ela é espiralada, cheia de recuos e de quedas. Aquele “erro” terrível que você cometeu no passado não te atrasou. Ele foi o preço exato da sabedoria que você tem hoje para não ser mais feito de tolo.
Respire. Sinta o peso do seu corpo. Você não está quebrado. Decrete hoje o fim dessa cobrança adoecedora. O seu tempo não acabou; ele está, neste exato momento, acontecendo. Aceite a sua realidade, com todas as suas rachaduras, pois é nelas que reside a sua verdadeira força. O jogo não acabou. Ele apenas deixou de ser o jogo deles.
Rafael Botelho | Psicanalista
