O cenário costuma ser impecável. A carreira está consolidada, as equipes estão gerenciadas e a família, na medida do possível, está sob um planejamento cuidadoso. A vida de fora parece uma planilha perfeitamente executada, onde até mesmo os imprevistos têm seu plano de contingência. No entanto, aos domingos à noite ou no silêncio de um voo, há uma exaustão que o sono não resolve. Um cansaço denso, pesado, que parece impregnado nos ossos.

A verdadeira exaustão emocional na alta performance não vem do excesso de trabalho. Vem do excesso de defesa.

Na clínica psicanalítica, frequentemente escuto homens e mulheres que transformaram sua extrema inteligência lógica em um muro de contenção. Eles não sentem medo; eles sentem uma “apreensão estratégica“. Eles não sentem raiva; eles “reposicionam expectativas“. Eles criam jogos mentais para não esbarrar na própria vulnerabilidade.

Freud e, posteriormente, Melanie Klein, nos ensinaram que o intelecto pode ser usado não para descobrir verdades, mas para encobri-las. A racionalização contínua é um mecanismo de defesa formidável. O sujeito constrói teses brilhantes sobre sua própria vida para não ter que descer ao porão dos seus afetos. Ali, muitas vezes, esconde-se um desamparo infantil, uma raiva antiga não elaborada, ou o simples e aterrorizante fato de que não podemos controlar tudo.

Essa tentativa de onipotência tem um preço altíssimo. Quando a mente higieniza as emoções, colocando cada sentimento em uma caixa conceitual para que não transborde, a conta inevitavelmente vai para o corpo. O ganho de peso inexplicável, a imunidade que despenca a cada final de trimestre, a fadiga crônica. O corpo começa a gritar aquilo que o sujeito, em sua polidez obsessiva, se recusa a verbalizar. A somatização é o sintoma de quem tenta gerenciar a alma como se gerencia uma multinacional.

A verdadeira coragem, portanto, não reside em aperfeiçoar ainda mais o controle. Não está em encontrar um novo hobby, uma nova filosofia de otimização ou um retiro espiritual que sirva como mais uma camada de isolamento. A verdadeira coragem psíquica exige suportar a queda das certezas. Exige aceitar que a vida afetiva é inerentemente imprevisível e que tentar domesticá-la é a via mais rápida para o adoecimento.

Há um momento em que a armadura se torna mais pesada do que as batalhas que ela prometia evitar. É nesse ponto de fratura que a psicanálise começa.

Rafael Botelho | Psicanalista
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