O jantar foi perfeito. A mesa posta com a louça que vocês compraram na última viagem à Europa, o vinho na temperatura certa, a conversa fluindo educadamente sobre a reforma da casa de praia ou a escola das crianças. Se alguém olhasse pela janela, veria a imagem da felicidade conjugal bem-sucedida, mas não podem imaginar a solidão nos casamentos que muitas vezes é de vitrine.

Mas então, as luzes se apagam.

E no escuro do quarto, deitada ao lado de alguém com quem você divide a vida há dez, quinze anos, você sente um abismo geográfico entre o seu travesseiro e o dele.

Como é possível estar tão perto fisicamente e tão distante subjetivamente?

A “solidão a dois” é um dos sintomas mais cruéis da nossa época, especialmente em casais onde tudo parece funcionar. A engrenagem da família roda, as contas são pagas, as férias são agendadas. Vocês são sócios eficientes na empresa chamada “Família S.A.“. Mas a pergunta que você cala toda noite é: onde foi parar o encontro?

Muitas vezes, escolhemos parceiros não pelo que eles são, mas pelo que eles representam para o nosso ego. Na psicanálise, chamamos isso de “escolha objetal narcísica“. Ele é o homem que te dá segurança e status; você é a mulher que dá a ele a imagem de família perfeita.

Vocês se amam? Provavelmente sim. Mas talvez amem mais a imagem que um sustenta para o outro do que a verdade nua e crua que habita atrás da máscara.

O problema dos “casamentos de vitrine” é que a vitrine não permite falhas. E a intimidade real, aquela que conecta almas, precisa da falha, da vulnerabilidade, do não-saber.

Quando a relação vira um protocolo de performance, o desejo morre. Porque o desejo só nasce onde existe falta, onde existe mistério. Se tudo está preenchido, explicado e organizado, não sobra espaço para querer o outro. Sobra apenas a conveniência de tê-lo.

Romper com esse silêncio não significa necessariamente romper o casamento. Muitas vezes, a separação é apenas mais uma fuga.

O verdadeiro ato de coragem é tentar, pela primeira vez em anos, olhar para esse estranho ao seu lado e perguntar: “Quem é você hoje?“. E, mais difícil ainda, deixar que ele veja quem você se tornou.

Sair da vitrine e entrar na vida real é arriscado. Pode haver poeira, pode haver bagunça. Mas é o único lugar onde a vida acontece de verdade.

A pergunta que fica é: você está disposta a pagar o preço de ser vista, ou prefere continuar sendo apenas admirada?

Rafael Botelho | Psicanalista
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